O (des)prazer da comida – Comer ou não comer? Eis a questão!
O avanço dos meios de comunicação nas últimas décadas, veio dar a conhecer as Perturbações do Comportamento Alimentar, uma vez que são frequentemente consideradas quadros clínicos ligados à modernidade (magreza, beleza, perfeição). Estas perturbações referem-se, regra geral, a distúrbios psicológicos que se caracterizam por graves anomalias no comportamento de ingestão; quer dizer, a base de funcionamento de tais distúrbios assenta em alterações psicológicas.
O problema costuma surgir, em média entre os 14 e os 18 anos e muito dificilmente principiam depois dos 40 anos. Muitas vezes, são os acontecimentos negativos da vida das pessoas que desencadeiam os ditos distúrbios alimentares, como perda de emprego, falecimento de um ente querido, ruptura do casamento, falta de apoio familiar, isolamento social, entre outros… Não se pode afirmar que são estes eventos que causam estas perturbações, pode-se dizer apenas que são um grande salto na sua direcção. As mulheres são largamente mais afectadas pelos distúrbios alimentares, contudo,a faixa etária mais comum é a dos adolescentes e jovens adultos, podendo ainda ocorrer na infância, o que é menos usual.
Os distúrbios alimentares surgem, muitas vezes, como soluções fáceis para crises de desenvolvimento, regulação do humor ou resolução de problemas na dinâmica familiar. No entanto, apenas oferecem uma solução parcial e temporária, com elevados custos em termos de desenvolvimento maturacional e riscos para a saúde física da pessoa.
Neste momento, o leitor deve-se interrogar sobre quais são as perturbações do comportamento alimentar, como se manifestam e quais os tratamentos ou soluções existentes…pois bem, estes distúrbios alimentares são: a Anorexia Nervosa e a Bulimia Nervosa.
A Anorexia Nervosa caracteriza-se por um comportamento persistente que uma pessoa apresenta em manter o seu peso corporal abaixo dos níveis esperados para a sua estatura, juntamente com uma percepção distorcida do seu próprio corpo, que leva a pessoa a ver-se como “gorda”. Apesar de todos conseguirem ver que a pessoa está abaixo do seu peso normal, que está magra ou muito magra, a mesma insiste em negar, a emagrecer e a perder ainda mais peso. O funcionamento mental de uma forma geral está preservado, excepto na imagem que tem de si mesmo, apresentando um comportamento irracional na busca do emagrecimento e uma significativa perturbação da percepção do tamanho e formas corporais. As pessoas com Anorexia Nervosa usam métodos pouco usuais para emagrecer: além da dieta em que reduzem a quantidade total de alimentos, são capazes de se submeter a exercícios físicos intensos, induzir o vómito, jejuar, tomar diuréticos e consumir laxantes.
Estas pessoas podem desenvolver um paladar estranho ou estabelecer rituais para a alimentação (por exemplo, coleccionar receitas ou acumular comida às escondidas), manifestarem humor depressivo, isolamento social, irritabilidade, insónia e diminuição do interesse sexual.
Aos olhos de quem não conhece o problema, é estranho como alguém dito “normal” pode considerar-se acima do peso, estando muito abaixo deste. Isto significa que no seu próprio ambiente as pessoas não notam que um determinado familiar/amigo está doente, pelo seu comportamento. Apesar de algumas pessoas com esta perturbação saberem que estão magras, tipicamente negam as consequências médicas graves do seu estado de malnutrição, mas este fenómeno deve ser levado muito a sério pois 10% dos casos que requerem internação para tratamento morrem por inanição, suicídio ou desequilíbrio dos componentes sanguíneos. A internação para a reposição de nutrientes é recomendada quando os pacientes atingem um nível crítico de risco para a própria saúde e como parte de um longo programa terapêutico, com os objectivos de restaurar a saúde física e mental e o funcionamento social, bem como preparar as doentes para a prevenção de recaídas e promoção da saúde.
No outro pólo das perturbações alimentares, temos a Bulimia Nervosa, que se distingue por episódios repetidos de voracidade alimentar, seguidos por comportamentos compensatórios inapropriados que impeçam o aumento de peso, tais como vómito induzido, abuso de laxantes, diuréticos, jejum e exercício físico excessivo, pois incluem o alívio do desconforto físico e a diminuição do medo de engordar.
Também aqui, existe uma excessiva preocupação com o peso e forma corporal. Por norma, estas pessoas sentem-se envergonhadas pelos seus problemas alimentares e fazem de tudo para esconder os seus sintomas, ou seja, quando têm aquele apetite imenso de alimentos com bastantes calorias, fazem-no em segredo, sem dar nas vistas.
As pessoas com bulimia nervosa têm caracteristicamente um peso normal, apesar de algumas estarem com peso superficialmente acima ou abaixo do esperado. Nesta perturbação existe uma maior quantia de sintomas depressivos e de humor (por exemplo, baixa auto-estima, irritabilidade), bem como acréscimo de ansiedade. Os principais sintomas são: a perda do esmalte dentário, irregularidades menstruais, grandes oscilações de peso, rosto inchado (pela indução sistemática do vómito), garganta irritada, dificuldade em dormir, irregularidade menstrual, fraqueza muscular.
O tratamento destas perturbações não é fácil, pois não há medicamentos específicos que restabeleçam a correcta percepção da imagem corporal ou acabem com o desejo de perder peso. No entanto, têm sido recomendados anti depressivos triciclícos, entre outros. Efectivamente, o tratamento dos distúrbios alimentares constitui um processo complexo e moroso, que pode implicar diversas modalidades (internamento, hospital parcial e ambulatório). O tratamento deve ser conduzido por uma equipa composta de Psiquiatra, Psicólogo, Nutricionista, Endocrinologista e Assistente social com o objectivo de estabelecer na pessoa um padrão alimentar regular e disciplinado, bem como a extinção de hábitos ou atitudes incorrectas e a sua substituição por novos padrões apropriados e não provocadores de ansiedade.
Como o título sugere, nem sempre é um prazer comer, mas quando se come por prazer tudo é bem mais simples e aqui eis a resposta para a questão!
Lara Lé
(Psicóloga Clínica)









